O Carry Trade, o Subprime e o Credit Crunch
Posições alavancadas em carry trade em yen, aplicadas em derivativos de subprime americano, cuja deterioração do risco tem causado elevadas perdas em hedge funds e bancos internacionais, têm provocado um credit crunch com potencial para drenar a enorme liquidez internacional.
Ou seja: investidores internacionais e japoneses, aproveitando-se das baixíssimas taxas de juros no Japão, em torno de 0,5% a.a., levantaram expressivas somas em empréstimos em moeda japonesa e aplicaram em títulos e ações de mercados emergentes, buscando auferir resultados de arbitragem de resultados. Parte desses recursos foi aplicado no sistema de hipotecas de imóveis americanos destinado a tomadores com alto risco de crédito (subprime). O aumento da inadimplência nesses empréstimos e a queda no preço dos imóveis dados em garantia acarretaram uma degradação da qualidade desses créditos. Os fundos e bancos financiadores desse sistema têm apresentado perdas bilionárias, cujo montante pode totalizar US$80 bilhões. Como conseqüência, as instituições financeiras têm aumentado a exigência para concessão de novos empréstimos, restringindo dessa maneira o crédito.
Em nenhum outro mercado a globalização se mostra tão importante quanto no mercado financeiro. A volatilidade apresentada pelos mercados internacionais, e também locais, no final do mês de julho, tem muito a ver com a nossa análise acima. O acirramento dos níveis de inflação tem obrigado diversos bancos centrais ao redor do mundo a elevar suas taxas de juros, trazendo consigo o espectro da redução da grande liquidez internacional, que pode ocasionar uma realocação de portfólios de investimento.
No Brasil, as conseqüências foram intensas: o índice Ibovespa perdeu 8%, o risco País subiu perto de 30%, os juros futuros tiveram forte ajuste e o dólar alcançou sua maior cotação no mês. As conseqüências só não foram maiores porque os fundamentos da economia estão muito bons: inflação controlada, taxas de juros nominais em níveis historicamente baixos, crescimento acelerado do crédito e consumo, reservas internacionais da ordem de U$ 155 bilhões e crescimento do PIB 2007 estimado em 4,5%.
Crises vêm e vão, mercados sobem e descem. Volatilidade é, definitivamente o nome do jogo. Mas, como sempre, dúvidas decorrentes da ausência de reformas estruturais, além de baixo nível de investimentos em infra-estrutura representam um perigo cada vez maior para o dito crescimento auto-sustentável no Brasil. A recente tragédia anunciada do apagão aéreo, que não tem prazo para terminar, a matriz energética dependente do gás boliviano, a incerteza quanto aos novos projetos hidrelétricos, as precárias condições de estradas e portos, a altíssima carga tributária e o crescimento contínuo dos gastos de custeio da máquina governamental são as sombras que pairam em nossas mentes, nesse momento tão propício para o crescimento mundial.
Roberto Leonardo Moreira |