“Este ano não vai ser igual àquele que passou...”
Os versos iniciais da antiga marchinha de Carnaval dão o tom do nosso comentário.
Ao final do ano passado, a apresentação dos cenários para 2008, conduzida pelo economista chefe de um importante banco de investimentos estrangeiro, normalmente bastante formal, começou de maneira impactante e nada usual.
Um vídeo mostrava um surfista se preparando para deslizar em uma gigantesca onda. A visão era fantástica. A platéia, atenta, acompanhava as manobras do atleta surfando por entre a vaga. Repentinamente, o filme foi interrompido e a apresentação de números, gráficos e comentários teve início.
No período de 2003 a 2007 vários fatores permitiram que a economia brasileira se aproveitasse dos ventos favoráveis que sopraram no mundo. O crescimento da economia mundial, impulsionado pelo crescimento de países como China, Índia, alguns emergentes e outros países centrais, inclusive os Estados Unidos, foram beneficiados pelo ciclo deflacionário produzido pelos ganhos de produtividade e barateamento de produtos chineses e fatores de produção de algumas nações em desenvolvimento. O dragão chinês e a vaca indiana cuidaram de devorar toneladas de commodities metálicas, energéticas e alimentícias de todos os países que as produzem. Como resultado, o preço desses produtos atingiu patamares historicamente elevados, permitindo que os países exportadores acumulassem reservas. A desvalorização do dólar norte americano frente a outras moedas, e de algumas commodities, como o ouro, contribuíram para um fluxo de liquidez de capitais jamais observado em tempos de globalização.
Sob o timão experiente e seguro do capitão Henrique Meirelles, a tripulação do Banco Central do Brasil navegou quase à perfeição. Inicialmente em águas revoltas e depois com mar de almirante, o Brasil alcançou condições econômicas até certo ponto inimagináveis por quase todos os brasileiros. Recordes sucessivos de balança comercial, Investimentos Estrangeiros Diretos em volumes históricos, saldos positivos em contas correntes, tudo isso permitiu a acumulação de US$ 180 bilhões de dólares, ao final de 2007, zerando o passivo externo do Brasil. As taxas de juros, em face de estabilização inflacionária em baixos patamares, convergiram a níveis igualmente reduzidos. O crédito consignado a aposentados e trabalhadores ativos, com o alongamento natural dos prazos de financiamento, assim como a redistribuição de renda, através dos programas assistencialistas, liberaram o acesso ao consumo, para uma camada da população, de bens antes inalcançáveis, como eletrodomésticos, automóveis e, até, bens imóveis. O crescimento do PIB de 2007, no Brasil, deve superar 5%.
“Este ano não vai ser igual àquele que passou...”
Com muita chance o ano que se inicia deve ser diferente do que se encerrou. No cenário externo, a crise de liquidez e credibilidade provocadas pelo mercado imobiliário americano vem estreitando o fluxo de capitais para investimentos que envolvam maiores riscos, apesar da situação das contas externas garantir razoável tranqüilidade diante das turbulências dos mercados internacionais.
O cenário interno, mais relevante nesse momento, traz algumas complicações.
A perda da CPMF se traduz em confusas declarações do governo a respeito da adequação dos orçamentos. Ora aumentando tributos, ora cortando gastos, emendas parlamentares, obras do PAC, superávit primário, através ou não dos Projetos Pilotos de Investimento, trazem insegurança aos mercados. Acrescentemos a tudo isso um calendário eleitoral bem próximo, com pouca folga para manobras orçamentárias.
Pressões inflacionárias decorrentes do aquecimento da demanda começam a se fazer presentes sobre alguns bens, serviços e alimentos.
As restrições de fornecimento de energia, com redução dos reservatórios hídricos, com a redução de fornecimento do gás boliviano e a falta de novos investimentos em geração, podem comprometer um crescimento econômico que se mostrava irreversível. Os gargalos da infra-estrutura de portos, aeroportos e rodovias, assim como a excessiva burocracia, vêm tornando cada vez mais elevado o custo Brasil.
CORTE. Os números, gráficos e comentários foram apresentados.
A apresentação prossegue com a reintrodução do vídeo com o surfista, ainda deslizando na colossal onda, agora encoberto por uma camada de espuma, que não nos permite vê-lo. Antes que o filme termine a tela se apaga e o nosso apresentador, sob aplausos da platéia, instiga a mente dos presentes sobre o desfecho do próximo episódio.
Roberto Leonardo Moreira
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